ERGUEI A CABEÇA

(Is 35, 4)

 

 

"Levantai-vos, erguei a cabeça..."

 

 

Católico, você não foi criado pelo Deus Eterno para ficar amuado num canto, para viver de cabeça baixa como um frustrado, para cruzar os braços diante dos obstáculos que surgem pelo caminho ou para se desanimar diante de uma queda. É claro que vivemos em meio a terríveis provações, mas é preciso levantar a cabeça e caminhar fervorosamente em busca da Vida Eterna: "O Reino dos céus padece violência, e aqueles que se esforçam o arrebatam" (Mt 11, 12), e: "Padece violência a Igreja por parte dos poderes do mal, como também padece violência a alma de cada homem, inclinada ao mal em consequência do pecado original. Será necessário lutar até o último dos nossos dias para podermos seguir o Senhor nesta vida e contemplá-lo eternamente no Céu" (Pe. Francisco Fernández-Carvajal), e também: "Essa força não se manifesta na violência contra os outros; é fortaleza para combater as nossas debilidades e misérias, valentia para não mascarar as nossas infidelidades, audácia para confessar a fé, mesmo quando o ambiente é contrário" (São Josemaría Escrivá, Cristo que passa, n° 82), e ainda: "O Reino dos Céus não pertence aos que dormem e vivem dando-se todos os gostos, mas aos que lutam contra si mesmos" (Clemente de Alexandria, Quis dives salvetur, 21).

O Pe. Francisco Fernández-Carvajal diz: "A vida do cristão não é compatível com o aburguesamento, o comodismo e a tibieza", e: "O cristão nasceu para a luta, e quanto mais encarniçada se apresenta, tanto mais segura há de ser a vitória com o auxílio de Deus" (Leão XIII, Encíclica Sapientiae christianae, 19), e também: "Há pessoas que não são capazes nem sequer de trocar de lugar por Deus. Quereriam sentir gostos e consolos de Deus sem fazer nenhum esforço a não ser engolir o que Ele lhes põe na boca, e desfrutar do que Ele lhes põe no coração sem se mortificarem em nada, sem abandonarem os seus gostos e veleidades. Mas esperam em vão. Porque, enquanto não saírem em busca de Deus, por muito que chamem por Ele, não o encontrarão" (São João da Cruz, Cântico Espiritual, 3, 2).

Católico, caiu? Não se acovarde. Comece de novo! Só chegará à meta desejada aquele que caminhar: "Hoje, como ontem, do cristão espera-se heroísmo. Heroísmo em grandes contendas, se for preciso. Heroísmo - e será normal - nas pequenas pendências de cada dia" (São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, 82).

Católico, está desanimado por causa de um fracasso? Não cruze os braços. Comece de novo! Sem luta não há vitória: "Marcar metas não basta. É preciso lutar. É forte não aquele que não experimenta fraquezas - todos nós a sentimos -, mas aquele que luta por superá-las; é corajoso não aquele que não sente medo - ninguém é um super-homem-, mas aquele que luta por ultrapassar a covardia... A meta está no fim da vida. A luta dura a existência inteira. E para esse longo combate não bastam gestos enérgicos intermitentes, mas é necessária uma atitude habitual de fortaleza que nos faça ganhar, com o último tiro, a última batalha" (Dom Rafael Llano Cifuentes).

Católico, perdeu a vontade de caminhar por causa dos obstáculos? Avante! Comece de novo! Lembre-se de que aquele que vive sentado à beira do caminho jamais será premiado: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque depois de sofrer a provação receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam... Eis, chamamos felizes os que suportam os sofrimentos com constância" (Tg 1, 12; 5, 11).

São milhões as pessoas que caem e preferem ficar amuadas a sacudirem a poeira da preguiça e se levantarem. Será que esse tipo de gente chegará a algum lugar?

É preciso convidar essas pessoas a começar de novo, isso mesmo, começar de novo: "Não querer progredir é retroceder. E como o nosso organismo continuamente cresce ou diminui, assim o nosso espírito. Ou avança ou recua" (São Bernardo de Claraval, Ep. 253 - ao Abade Garino), e: "Quem pára, desanda" (Regra de São Gregório Magno para a vida espiritual), e também: "No caminho da perfeição, não ir adiante é recuar; e não ir ganhando é ir perdendo" (São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, Livro I, cap. XI, 5).

Por maior que seja uma queda, é preciso começar de novo. É importante lembrar de que a vida é curta e que tudo passa; só perde quem ficar adormecido à beira do caminho. É preciso lembrar de que existe um Deus que abre o coração para um filho confiante.

Quem ama verdadeiramente a Deus não se entrega, mas sim, começa de novo: "O nosso amor a Deus consistirá em retomarmos muitas vezes o esforço diário por não nos deixarmos vencer pelo comodismo e pela preguiça, que estão sempre à nossa espreita" (Pe. Francisco Fernández-Carvajal), e: "O diabo não dorme, e a carne também ainda não morreu; por isso não cesses de preparar-te para a batalha. À direita e à esquerda estão os inimigos que nunca descansam" (Tomás de kempis, Imitação de Cristo, II, 9, 8).

Católico, cuidado com o orgulho e com o pessimismo. Muitos caem nas "estradas" da vida e não querem mais se levantar; preferem ser sufocados pela poeira e pela lama a estender os braços para Deus. Quanta estupidez! "No nosso caminhar para Deus, nem sempre venceremos. Muitas das nossas derrotas serão de pouco relevo; outras, pelo contrário, terão importância, mas o desagravo e a contrição nos levarão de volta a Deus. E começaremos de novo, com a ajuda do Senhor, sem desânimos nem pessimismos, que são fruto da soberba, mas com a necessária paciência e humildade, ainda que não vejamos fruto nenhum. Em inúmeras ocasiões ouviremos o Espírito Santo dizer-nos: Torna a começar..., sê constante, não te preocupes com esse fracasso, não te preocupes com todas as experiências negativas anteriores juntas..., torna a começar com mais humildade, pedindo mais ajuda ao teu Senhor" (Pe. Francisco Fernández-Carvajal).

No campo das realizações humanas, a genialidade é normalmente fruto de uma paciência prolongada, de um esforço incessantemente repetido e melhorado: "O sábio repete os seus cálculos e renova as suas experiências, modificando-as até acertar com o objeto das suas pesquisas. O escritor retoca vinte vezes a sua obra. O escultor quebra um após outro todos os moldes até conseguir expressar a sua criação interior... Todas as criações humanas são fruto de um perpétuo voltar a começar" (G. Chevrot).

No âmbito da vida espiritual, o nosso amor ao Senhor não se mede tanto pelos êxitos que julgamos ter alcançado quanto pela capacidade de começar de novo, de renovar a luta interior. A desistência ou o desleixo no cumprimento dos propósitos e metas de vida interior, são sinal evidente de mediocridade espiritual e de tibieza. No caminho que nos conduz a Deus, "dormir é morrer" (São Gregório Magno, Hom. 12 sobre os Evangelhos).

O Pe. Francisco Fernández-Carvajal escreve: "Com frequência, o progresso na vida interior vem depois de uma sucessão de fracassos, talvez inesperados, perante os quais reagimos com humildade e desejos mais firmes de seguir a Deus. Já se disse com razão que a perseverança não consiste em não cair nunca, mas em levantar-se sempre", e "Quando um soldado em combate recebe uma ferida ou tem que retroceder um pouco, ninguém é tão exigente ou tão ignorante das coisas da guerra que pense que isso é um crime. Os únicos que não recebem ferimentos são os que não combatem; já os que se lançam com mais ardor contra o inimigo são os que mais golpes recebem" (São João Crisóstomo, Exort. II a Teodoro, 5).

Católico, levante a cabeça! Lembre de São Pedro que, depois de uma noite inteira  em que não havia pescado nada, lança de novo as redes ao mar só porque o Senhor lhe manda. Não fique prostrado, mas seja dócil ao Senhor: "Apesar do cansaço, apesar de não ser hora de pescar, aqueles homens voltam a lançar ao mar as redes que já estavam lavando para o dia seguinte. As considerações humanas que tornavam desaconselhável a pesca ficaram para trás. O motivo que os leva a reiniciar a tarefa é a confiança de Pedro no seu Senhor. Pedro obedece sem mais raciocínios" (Pe. Francisco Fernández-Carvajal).

Católico, levante a cabeça! Siga o exemplo do cego de Jericó que vivia prostrado à beira da estrada, mas que deu um salto ao ouvir que o Senhor lhe chamava: "Deixando a sua capa, levantou-se e foi até Jesus" (Mc 10, 50).

Já pensou se o mesmo tivesse permanecido amuado no seu canto... se alimentando do seu orgulho e do seu pessimismo?

Católico, saiba começar de novo... não fique prostrado na lama do orgulho... não se abrace com a poeira do pessimismo. Lembre-se de que para conquistar a Vida Eterna é preciso caminhar... disparar... voar na perfeição: "Começar, começar: ó Senhor, sempre começando! Procurarei, no entanto, fazer força com toda a minha alma em cada jornada... A vida espiritual é - repito-o até cansar, de propósito - um contínuo começar e recomeçar. - Recomeçar? Sim! De cada vez que  fazes um ato de contrição - e deveríamos fazer muitos diariamente -, recomeças, porque dás a Deus um novo amor" (São Josemaría Escrivá, Forja, 378 e 384).

 

 

Pe. Divino Antônio Lopes FP.

Anápolis, 13 de maio de 2008

 

 

 

 

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Pe. Divino Antônio Lopes FP. "Erguei a cabeça"

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